Operação que investiga bets ilegais por movimentação bilionária cumpre mandados em PE, SP e CE
18/06/2026
(Foto: Reprodução) Saiba o que foi apreendido em operação em PE, no CE e em SP contra bets ilegais
Uma operação contra um esquema criminoso de movimentação bilionária através de bets ilegais cumpriu, nesta quinta-feira (18), 14 mandados de busca e apreensão em três estados: Pernambuco, Ceará e São Paulo (veja vídeo acima). Não houve prisões nessa fase da Operação Conto da Sorte, realizada pelos Ministérios Públicos do Rio Grande do Norte e de Pernambuco e pela Receita Federal.
"O objetivo é colher provas sobre um esquema de exploração irregular de apostas de quotas fixas e jogos de azar na internet, as chamadas bets. [...] Os crimes investigados são de lavagem de dinheiro, induzimento à especulação, exploração de jogo de azar e loteria não autorizada, associação criminosa e contra as relações de consumo", afirmou o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), em nota.
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Os mandados foram expedidos pela 2ª Vara da Comarca de Currais Novos, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. A investigação foi iniciada a partir de uma análise técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, após a prefeitura de Bodó, município potiguar, criar a autarquia Lotseridó (entenda, mais abaixo, como funcionava o esquema criminoso).
Antes de encerrar as atividades, em outubro de 2025, a Lotseridó passou a credenciar, de forma irregular, empresas de apostas de quota fixa, que "permanecem atuando à revelia da SPA", segundo a Receita Federal. O valor movimentado pelas bets ilegais "será revelado com os dados coletados nas buscas, apreensões e quebras de sigilo", mas chega a bilhões de reais.
"Nada acontecia em Bodó. A prefeitura apenas entrou com a questão formal ou edital de credenciamento. E bets do Brasil todo, de forma irregular, foram credenciadas naquela prefeitura. E saíram explorando apostas de forma irregular, de forma irresponsável e sem autorização dos órgãos responsáveis", disse o promotor de Justiça Augusto Lima, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MPRN em coletiva de imprensa no Recife.
De acordo com a Receita Federal, a Operação Conto da Sorte foi deflagrada para apreender "documentos diversos e informações em mídia como elementos de prova para a investigação, [...] bens e direitos até o limite de R$ 145 milhões para garantia de restituição dos ilícitos apurados".
O promotor listou o que foi apreendido através dos mandados cumpridos nos três estados:
"Nós apreendemos, basicamente, dispositivos eletrônicos e documentos que vão servir para analisar e visualizar as condutas de cada uma dessas pessoas [investigadas]";
"Apreendemos também dinheiro em espécie, cerca de R$ 30 mil em espécie, e alguma moeda estrangeira que ainda está sendo contabilizada";
"Passaportes dessas pessoas, tanto de nacionalidade brasileira como de outros países";
"E também houve a apreensão de algumas armas e munições no interior do estado. Está sendo apurado se essas armas e munições são legais ou não".
Autorização de prefeitura foi cassada pelo STF
Em Brasília, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou que a autorização concedida pela prefeitura de Bodó para as empresas operarem como bet foi cassada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido do governo federal.
"Um município pequeno do interior do Rio Grande do Norte chamado Bodó, por um momento, conferiu uma autorização para esse grupo de empresas, para essa bet, depois foi cassada a nosso pedido no Supremo. O Supremo Tribunal Federal disse que não há competência para município autorizar jogos e apostas no país. Mesmo assim, houve uma sequência de operação por parte dessa empresa", afirmou o ministro.
Ainda de acordo com Dario Durigan, a Operação Conto da Sorte é uma das várias realizadas no Brasil para combater as bets ilegais no país.
“Houve uma movimentação, a princípio, de R$ 50 bilhões em razão dessas 37 empresas que operavam de maneira ilegal bets no país, e esses 14 mandados de busca e apreensão vão nos permitir apurar os valores exatos que serão anunciados muito em breve. [...] O governo está fazendo um esforço de inteligência para um combate duro às bets ilegais”, disse Dario.
O g1 tenta contato com a prefeitura de Bodó para saber se a administração municipal vai se pronunciar sobre essa investigação, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem.
Como funcionava o esquema
Dinheiro apreendido na Operação Conto da Sorte, deflagrada em PE, em SP e no CE
MPRN/Divulgação
O funcionamento do esquema criminoso praticado pela quadrilha investigada foi divulgado pela Receita Federal:
Os criminosos constituíram "dezenas de empresas de exploração de jogos de azar e apostas e instituições de pagamento, que eram então repassadas formalmente a terceiros, sem capacidade econômica, enquanto o controle gerencial e financeiro permanecia com o grupo";
"Alguns dos sócios ostensivos seriam beneficiários de auxílio emergencial, enquanto outras empresas teriam sido colocadas em nome de parentes dos investigados";
Algumas dessas empresas não existem e são utilizadas apenas para a movimentação financeira nas suas contas bancárias;
A investigação apontou "movimentação financeira incompatível com os rendimentos declarados, indícios de sonegação fiscal, de lavagem de dinheiro com a aquisição de imóveis";
Também foi verificada a "ausência de repasse sobre a receita líquida de apostas, prevista na Lei nº 13.756/2023, que regulamenta a atividade das bets".
Segundo Augusto Lima, os apostadores eram do Brasil todo, mas a maioria dos mandados foi cumprida num estado. "Pernambuco concentrou a maior parte dos alvos de busca e apreensão porque os líderes do esquema e a maior parte dos laranjas estão aqui. As empresas de fachada também eram registradas aqui, as bets ilegais, as instituições de pagamento de fachada", disse.
O promotor também explicou como aconteciam as movimentações financeiras do esquema criminoso. "O dinheiro entrava nessas empresas de fachada através de PIXs feitos a outras empresas. Rodavam ali no sistema financeiro, muitas vezes sem a regulação do Banco Central e chegavam aos beneficiários finais e também às empresas que atuavam no Ministério. Então, esse caminho era sempre dificultado através de várias camadas de transferência", declarou.
Ele enfatizou que as bets investigadas agiam irresponsavelmente. "Sem prevenção à publicidade infantil, sem prevenção a apostas infantis, sem prevenção à lavagem de dinheiro e especialmente sem campanhas de promoção da saúde mental. Todas aquelas regras de boas apostas, do jogo limpo, que existem no Ministério da Fazenda não eram cumpridas pelas bets irregulares de Bodó. [...] E elas destinam grande parte dos recursos para fora do Brasil. Então há um dano tanto tributário, às crianças e adolescentes e também à saúde mental dos apostadores", contou.
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